Síntese da história de Macaé

“Macaé situa-se em encantadora posição, à embocadura do rio do mesmo nome e é dividida por esse rio em duas partes desiguais. (SAINT-HILAIRE, 1974).”

A origem do nome Macaé
“Quanto à origem do nome MACAÉ, há divergências. É possível encontrarmos narrativas que caracterizam a diversidade geográfica e natural, e é atribuído ao Goitacá, um dos grupos nativos da região, o termo miquié, que significa “rio dos bagres”. Contudo, estudos recentes de tupinólogos, apontam para o significado da corruptela de maca ê, que entre estes nativos significava “macaba doce”, por extensão ”coco doce”, fruto de palmeira abundante na região. (CAUTIERO e FRANCO, 2006)”

Macaé Colônia e Império
“Nos primórdios de sua história, Macaé integrou a Capitania de São Tomé, mais tarde denominada de Paraíba do Sul, cuja donataria fora concedida a Pero de Góis que, em torno do ano de 1548, abandonou suas terras após frustradas tentativas de colonização. Por temer os índios Goitacás, seu filho Gil de Góis, em 1619 também renunciou à posse da capitania que, no inicio do século XVII, foi requerida pelos Sete Capitães. Nela instalaram currais e choupanas e, anos depois, lavoura da cana de açúcar; atividades que inaugurariam a ocupação colonial e o povoamento deste território. Em 1630, foi solicitada pelos padres da Companhia de Jesus a posse de uma sesmaria situada na região da Capitania da Paraíba do Sul, em terras localizadas entre os rios Macaé e Leripe, (atual Rio das Ostras) a qual constituiria futuramente a maior parte do território macaense.

No século XVIII, os jesuítas criaram dois engenhos para lavoura de cana. Um, junto à foz do Rio Macaé, mais tarde denominado de Fazenda de Macaé ou de Santana, mais próximo ao litoral; e outro na Fazenda de Imboassica. O primeiro ficava em torno da capela de Santana e o da Fazenda de Imboassica também possuía um oratório, delimitando as fazendas como estabelecimentos religiosos. Foi durante este período que esta região passou da atividade pecuária e da cultura de alimentos – atividades destinadas ao abastecimento do mercado interno – para a exportação da cana de açúcar.

A proliferação acelerada de engenhos no Setecentos e, como resultado disso, o crescimento demográfico da capitania aconteceu no contexto da decadência da produtividade do açúcar no Recôncavo da Guanabara e da transferência da capital de Salvador para o Rio de Janeiro, que provocaram uma maior dinamização da região. Somando-se a isto, a expulsão dos jesuítas, em 1759, também contribuiu para a transformação dos pastos em canaviais.

Durante um longo período de tempo, a região que em 1813 passou a constituir o município de Macaé esteve ligada à vila de Campos dos Goitacazes e à cidade de Cabo Frio. Neste ano, através do Alvará de 29 de julho, passou da condição de arraial para a de Vila de São João de Macaé. O município de Macaé foi elevado à categoria de cidade em 1846.

Tal fato aponta para a expansão econômica que, conjugada a igual expansão do sertão macaense, certamente contribuiu para a criação da vila. E um dado importante é que quando da formação do município de Macaé, houve a incorporação do distrito de Quissamã – até então pertencente a Campos dos Goytacazes –, que agregou à nova vila importantes elementos da classe senhorial dedicados à produção açucareira. Desta produção agrícola, adviria a projeção econômica e política da futura nobreza macaense, a partir de meados do século XIX, principalmente a que esteve em torno do Primeiro Visconde de Araruama e seus descendentes, cujo poder e status confeririam à freguesia de Quissamã a proeminência sobre os demais distritos do município de Macaé.

Desde final do século XVIII, a economia macaense estava voltada para o comércio interno e a produção de alimentos. O adensamento demográfico da região foi impulsionado pela atração de população livre que buscava condições favoráveis à expansão das lavouras de alimentos. A agricultura cafeeira foi extremamente importante para a economia macaense durante todo o século XIX (RODRIGUES e FRANCO, 2011).”

Macaé e a Republica
Com relação a primeira década da República em Macaé, foi marcada pela criação da prefeitura. No ano de 1910 foi criada nova administração municipal, instituída por determinação do então presidente do Estado do Rio Alfredo Guimarães Backer. Em 1911, Macaé ainda era uma “cidadezinha singela” com ares de vida campestre, ligada à capital da República “por uma linha de navegação costeira e outra férrea”, que partia de Macaé com destino ao porto de embarque de Santana de Maruhy em Niterói, naquela época capital do Estado do Rio de Janeiro. A vida urbana centrava-se na atividade comercial e o porto de Macaé continuava a servir para escoamento de mercadoria oriunda de Cantagalo, Santa Maria Madalena e Campos (FRANCO, 2009).

O século XX e XXI
”A segunda metade do século XX foi marcada por transformações significativas. A descoberta de Petróleo e a instalação da Petrobras na década de 1970 possibilitaram novos rumos para a economia local e regional. Atualmente (século XXI), com a intensificação das atividades petrolíferas e a implementação do pré-sal, Macaé se tornou um pólo econômico nacional e uma área de atração de populações e de investimentos do mundo inteiro (CAUTIERO e FRANCO, 2013).

SOCIEDADE E TRABALHO

“Com os jesuítas chegam também os primeiros escravos da África. Nos séculos que se seguiram, os cativos serviram de pés e mãos para os senhores das terras e donos de engenhos e de cafezais. Até o final do século XIX, a relação de trabalho predominante na exploração das riquezas da terra na região de Macaé terá a marca da escravidão, ora de índios, ora de africanos. Porém, não apenas de escravos e senhores se compunha a população da região de Macaé do periodo colonial e imperial. O trabalho livre sempre conviveu com o trabalho do cativo Tirando igualmente o seu sustento do cultivo da terra e do gado, bem como do extrativismo natural, sempre houve uma camada de gente pobre e livre. Eram pequenos proprietarios, meeiros e parceiros de terra rural. No contexto da crise da escravidão, juntaram-se a essa camada da população, em especial na área da serra, famílias de imigrantes, que passaram a contar principalmente com o trabalho na lavoura de café. A partir do século XIX, ocorreu a emergência das primeiras oficinas e industria, cujo funcionamento dependia do trabalho de assalariados. Na cidade surgiram, assim, tipos sociais, como os ferroviários da Lepoldina, os operários das fábricas. O trabalho na terra continua sendo fonte de riqueza para alguns poucos e de sobrevivência para muitos A introdução das relações de produção capitalistas no rneio rural fizeram emergir novos personagens na trama da história de Macaé, como os operários das usinas de açúcar ou os boias-frias que trabalham sazonalmente nas plantações. Da água muitos tiraram e tiram o seu sustento Desde a época dos índios goitacás, até os pescadores de hoje, tanto os rios, como o mar da costa representam uma fonte de trabalho na região de Macaé. Também para o faroleiro, os condutores das embarcações, ou os funcionários das plataformas flutuantes da Petrobras (operários da Petrobras e de suas subsidiárias), a água está presente no seu trabalho cotidiano, dando sentido à sua função econômica (KNAUSS, 2004)”.

A CULTURA EM MACAÉ

Literatura local
“No campo da literatura, o município de Macaé tem produzido escritores de renome – Godofredo Tinoco, Antônio Alvarez Parada, Alberto Figueiredo Pimentel. (KNAUSS, 2004)”. Acrescenta-se ainda autores macaenses como Henrique Antão de Vasconsellos, Luiz Reid (Lawrie Reid), Nehy de Aguiar Peixoto, Agenor Caldas, Yolanda de Souza Uchôa, Armando Borges, Lecy Pereira Dias, Antero Dias Lopes, Marininha Caldas da Cunha Nascimento, Joaquim da Silva Murteira, Américo Peixoto, Osmar Sardenberg, entre outros (Fonte: Vice Presidência de Acervo e Patrimônio Histórico/ Fundação Macaé de Cultura, 2014).

Teatros e cinemas
“As ideias também são promovidas em ambien¬tes da vida social. Tradicionalmente, a sociabilidade intelectual, em Macaé, desenvolveu-se entre teatros, saraus, cafés e livrarias. No palco do Teatro Santa Isabel, inaugurado em 1866, se apresentaram artistas de renome internacional. Até meados do século XX, frequentar o Santa Isabel ainda era um programa social muito comum, no seio da elite local. Apôs a Segunda Guerra Mundial, acompanhando as mudanças culturais da época, as atividades teatrais cedem lugar aos cinemas. O antigo teatro se transformou, então, no Cine teatro Santa Isabel. Data da década de 30 a construção do Cine Teatro Taboada, uma casa de espetáculo que se tornou um símbolo da vida cultural macaense das décadas de 50 e 60. O cinema esteve presente também na serra como local de encontro e vida social. Em Conceição de Macabu (nesta época distrito de Macaé), em 1927, inaugurou-se o Cine Brasil e, em 1930, inaugurou-se o Cine Teatro Glória, em Glicério. As salas de exibição de filmes foram, durante longo tempo, ponto importante da vida social (KNAUSS, 2004).”

Artes plásticas
“No campo das artes plásticas, é possível citar o pintor Hindemburgo Olive, membro da Academia Macaense de letras, várias vezes premiado e cujas obras, ainda hoje, podem ser admirados em exposições pelo país; o cartunista e ilustrador Alvaro Marins, conhecido como Seth, autor do livro o Brasil pela imagem (Seth também foi o criador do primeiro desenho animado brasileiro – O Kaiser), que constitui um belíssimo documento iconográfico dos costumes e paisagens do país, inclusive da região de Macae entre os anos de 1930 e 1940, e, ainda Jarbas Brasil de Moraes, cujas aquarelas tematizam a flora da região. Através de obras como as dos artistas citados se identifica a vida cultural da regiào de Macae (KNAUSS, 2004).”

Música
“No campo da música, ao longo da história de Macaé, destacaram-se nomes como o de Viriato Figueira da Silva, aqui nascido em 1851 e falecido, ainda muito jovem, no Rio de Janeiro, a 24 de abril de 1883.Músico e compositor, autor da polca-canção Só para Moer, incluída no Álbum de Músicas Brasileiras do Império. No início do século XX, no ano de 1903, nascia em Macaé aquele que viria a ser um dos maiores flautistas e compositores da música brasileira: Benedito Lacerda. Autor de músicas inesquecíveis, entre valsas, choros, sambas e marchas de carnaval. Músicas como Despedida de Mangueira, A Lapa, A Jardineira, Falta um zero em meu ordenado, Professora, Normalista, entre outras. Também nasceu em Macaé um dos maiores saxofonistas brasileiros da atualidade, Dulcilando Pereira, iniciou seu aprendizado na centenária Sociedade Musical Nova Aurora. Nascido no dia 28 de fevereiro de 1938 tornou-se um renomado pesquisador musical, músico arranjador e professor, assina a transcrição de várias obras musicais. Na serra macaese, destacam-se nomes como o do inesquecível Maestro Nelinho (Manoel Santos Sobrinho), nascido em Glicério no dia 2 de novembro de 1914 e falecido em Macaé no dia 20 de março de 1998. Maestro, músico (clarinetista) e compositor, é autor de vários choros e da ópera Ceceême, que compôs em homenagem à empresa de eletricidade responsável pela construção da Usina Hidrelétrica de Macabu, localizada no distrito do Frade. Também é de Glicério o compositor, arranjador e cantor Piry Reis. Em 1970, gravou o LP "Vocês querem mate?", produzido por Roberto Quartin. Nesse disco, lançado pelo selo Quartin e distribuido pela gravadora Tapecar, contou com as participações de Geraldo Carneiro no piano, Wilson das Neves na bateria e Paulo Jobim e Danilo Caymmi nas flautas (Fonte: Vice Presidência de Acervo e Patrimônio Histórico/ Fundação Macaé de Cultura, 2014).

Bandas
“No dominto da música, as Sociedades Musicais ou bandas são uma atração a parte deste município. As famosas bandas Nova Aurora, fundada em 1873, e a Lyra dos Conspiradores, de 1882. ambas com sede na cidade de Macaé, tornaram-se verdadeiros referenciais da tradição musical da região e da cidade. Outros distritos macaenses também possuíram suas bandas musicais: a Banda Furiosa de Glicério e a Inconfidencia do Sana. O Jazz Macabu era uma Banda de jazz criada no ano de 1939 pelos trabalhadores da Comissão Central de Macabu. Recebeu o incentivo do general Hélio de Macedo e a liderança do maestro Manoel Santos Sobrinho (KNAUSS, 2004).”


REFERÊNCIAS

- AMANTINO, Márcia; RODRIGUES, Claudia e Outros( Org.). Povoamento, e escravidão na antiga Macaé( séculos XVII ao XIX) catolicismo. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.
- CARVALHO, Augusto de. Apontamentos para a História da Capitania de São Tomé. Campos: Typ. e Lith. de Silva, Carneiro & Companhia, 1888.
- CARVALHO, Augusto de. Apontamentos para a História da Capitania de São Tomé. Campos: Typ. e Lith. de Silva, Carneiro & Companhia, 1888.
- CAUTIERO, Gisele Muniz dos Santos e FRANCO, M. da Conceição Vilela. Macaé nos séculos XX e XXI. Macaé/RJ: Prefeitura de Macaé, 2013. (mimeo)
- ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Legislação sobre os municípios, comarcas e distritos: abrangendo o período de 6 de março de 1835 a 31 de dezembro de 1925. Org. por Desiderio Luiz de Oliveira Junior. Rio de Janeiro: Typ. do Jornal do Comércio.
- FARIA, Sheila de Castro. A Colônia em movimento. Fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.
- FERREIRA, Ana Lúcia Nunes. O Município de Macaé: Fortunas Agrárias na Transição da Escravidão para o Trabalho Livre. Universidade Federal Fluminense, 2001 (Dissertação, mestrado em História).
- FRANCO, M. da Conceição Vilela. A Morte conta a Vida: sentenciamento, assassinatos e sepulturas na construção da memória no município de Macaé (Rio de Janeiro, 1855-1910). Universidade Salgado de Oliveira, Niterói: 2009 (Dissertação, mestrado em História).
- KNAUSS, Paulo. Macaé: História e Memória. Macaé: Prefeitura Municipal de Macaé, Fundação Macaé de Cultura. 2001.
- LAMEGO, Alberto. Macaé à luz de documentos inéditos. S/d
- PARADA, Antonio Alvarez. Coisas e gente da velha Macaé. São Paulo: Edigraf, 1958.
- PARADA, Antonio Alvarez. Histórias Curtas e Antigas de Macaé. Rio de Janeiro: Artes Gráficas, 1995. 2 vols.
- REYS, Manoel Martinz do Couto. Manuscritos de Manoel Martinz do Couto Reys. Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 1997, Coleção Fluminense.
- SAINT-HILAIRE, August de. Viagem pelo Distrito dos Diamantes e Litoral do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974.
- VASCONCELOS, Antão. Evocações: crimes célebres em Macahé. Benjamin de Aguila-Editor, Rio de Janeiro, 1911.

FONTE
Acervo do Solar dos Mellos – Museu da Cidade de Macaé, Vice Presidência de Acervo e Patrimônio Histórico – Fundação Macaé de Cultura.

Busca

Acesso Rápido

Destaque