“Saúde da População Negra” é o tema da capacitação voltada para 130 agentes comunitários de saúde, que será encerrada nesta quarta-feira (1º), no auditório do Núcleo de Educação Permanente em Saúde (Neps), no Hospital Municipal de Macaé (HPM), nos turnos da manhã e tarde. A formação, iniciada em março, foi realizada em três encontros (dias 17, 18 e 31), contemplando quatro turmas em horários distintos.
A iniciativa tem como foco ampliar o conhecimento dos profissionais sobre a importância da autodeclaração raça/cor, aprimorar a identificação de casos como anemia falciforme, fortalecer a orientação a gestantes negras, além de promover ações educativas em saúde e o enfrentamento ao racismo e ao preconceito institucional.
Nesta terça-feira (31 de março), as agentes comunitárias Aline Rodrigues e Fabiana Gregório, da Estratégia Saúde da Família do Botafogo, destacaram a relevância do conteúdo apresentado. "O aprofundamento no tema contribui diretamente para uma atuação mais sensível e qualificada no território, refletindo em um atendimento mais eficiente à população", comentaram.
A formação foi conduzida pela especialista em Saúde da População Negra, Rosângela Gomes Paulo, que enfatizou o papel estratégico dos agentes comunitários. “Esses profissionais atuam como importantes disseminadores de conhecimento dentro das comunidades. Trabalhar esse tema é essencial para promover mudanças concretas nos indicadores de saúde do município”, afirmou.
A coordenadora do Programa de Saúde da População Negra em Macaé, Jéssika Celestino, ressaltou que a iniciativa está alinhada à Política Nacional de Saúde Integral da População Negra. Segundo ela, a qualificação contínua das equipes contribui para a produção de indicadores mais precisos e para o fortalecimento da identidade da população negra. “Investir na formação dos profissionais é fundamental para aprimorar a coleta de dados e compreender, com mais profundidade, as demandas específicas desse público, permitindo um planejamento mais assertivo das ações em saúde”, destacou.
Já a coordenadora Rosana Feliciano enfatizou o papel estratégico dos agentes comunitários dentro das equipes de Saúde da Família. Ela pontuou que esses profissionais são fundamentais para ampliar o acesso aos serviços e promover a equidade. “Estamos priorizando os agentes por estarem diretamente inseridos nos territórios. Eles desempenham um papel essencial na prevenção, na identificação de agravos mais prevalentes, como hipertensão e diabetes, e no fortalecimento do registro da autodeclaração raça/cor, além de contribuírem significativamente para o levantamento de dados junto à Vigilância em Saúde”, explicou.
A especialista Rosângela Gomes Paulo também reforçou a importância da continuidade das ações. “A construção de uma atenção mais equânime passa pela sensibilização e capacitação permanente das equipes. É um processo contínuo, que exige compromisso com a redução das desigualdades e com a valorização da diversidade”, acrescentou.
A coordenadora geral do Neps, Eliane de Araújo, destacou que o núcleo atua em diversas frentes voltadas à qualificação dos profissionais da saúde. Segundo ela, a proposta é oferecer formações permanentes com foco no acolhimento, na escuta qualificada e na humanização do atendimento. “O Neps busca fortalecer o desenvolvimento dos servidores e estagiários, promovendo um ambiente de aprendizado contínuo e alinhado às necessidades da rede pública de saúde”, ressaltou.
O Neps, vinculado ao Centro de Estudos do HPM, mantém uma programação contínua de capacitações, além de atuar no acolhimento e na integração de residentes e estagiários das áreas de Medicina, Enfermagem, Nutrição e Farmácia, contribuindo para a formação e o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).
Agenda-
O Programa de Saúde da População Negra seguirá com uma agenda de ações ao longo do ano, com o objetivo de garantir acesso qualificado, oportuno e equânime aos serviços de saúde, respeitando as especificidades da população.
A rede municipal conta com a Gerência de Vigilância em Saúde, que, por meio da Divisão de Informação e Análise de Dados (DIAD), realiza a coleta e interpretação de dados estratégicos para o planejamento das políticas públicas. Instituída em 2009, a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra reconhece o racismo como determinante social da saúde e orienta ações voltadas à promoção, prevenção e cuidado integral.
Dados
De acordo com o IBGE (2022), 62% da população de Macaé se autodeclara negra (pretos e pardos), o que evidencia a importância de políticas públicas específicas. Na rede municipal, mais da metade dos atendimentos (53,02%) é realizada nesse grupo.
Dados epidemiológicos apontam maior incidência de doenças cardiovasculares entre pessoas pretas e pardas, como insuficiência cardíaca (91%), hipertensão (87%), acidente vascular cerebral (86%) e infarto (55%).
Em relação às doenças infecciosas, destacam-se registros de tuberculose (100%), coronavírus (100%), hepatites virais (76%) e HIV (61%). Já os transtornos falciformes representam 69% dos casos nesse grupo populacional.
No cenário nacional, mulheres negras apresentam maior vulnerabilidade em relação à saúde materna, com maior incidência de gravidez não planejada, menor número de consultas pré-natais adequadas e maior índice de internações por complicações.
Segundo o INCA, mulheres negras têm 57% mais chances de morrer por câncer de mama em comparação às mulheres brancas.
Diante desse cenário, a produção de informações qualificadas, como o boletim epidemiológico municipal, torna-se uma ferramenta estratégica para evidenciar desigualdades, orientar políticas públicas e promover a equidade racial no SUS.