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“Mangangá: A Encruza” foi selecionada entre 133 cenas inscritas e recebeu indicações do júri técnico durante o festival
A produção teatral de Macaé ganhou espaço na cena cultural do Estado do Rio de Janeiro com a participação de “Mangangá: A Encruza”, projeto desenvolvido por alunos e ex-alunos do curso técnico em Teatro da Escola Municipal de Artes Maria José Guedes (Emart), da Secretaria Municipal de Cultura. A montagem integrou a Mostra Estudantil do 19º Niterói em Cena – Festival Internacional de Teatro e, após a apresentação do dia 15 de setembro, foi indicada pelo júri técnico ao prêmio de Melhor Cena.
A montagem retornou ao festival no dia 22 de setembro, para uma reapresentação na Mostra Cenas Curtas, no Centro Cultural Cauby Peixoto, em Niterói. Além da indicação a Melhor Cena, o trabalho recebeu menções honrosas nas categorias Melhor Direção, para Neyva Santiago; Melhor Atriz, para João Avlis; Melhor Conjunto de Elenco; e Melhor Trilha Sonora Executada ao Vivo, com o Mestre Dengo.
Segundo a diretora teatral Neyva Santiago, a participação representa um momento importante na trajetória da Emart, que há 24 anos mantém o curso técnico em Teatro. De acordo com Neyva, esta foi a primeira vez que uma produção do curso ultrapassou a região Norte Fluminense para participar de um festival na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
“É muito gratificante compreender que o projeto teatral ‘Mangangá: A Encruza’ está fazendo parte da história e da trajetória profissional de todos nós integrantes e também da história da Emart”, afirmou.
A diretora conta que as apresentações foram marcadas pela receptividade do público. “Nossa apresentação no dia 15 de setembro foi emocionante quando subimos no palco do Teatro do Centro Cultural Cauby Peixoto. Ao final, recebemos muitos aplausos e tivemos retornos positivos da plateia. A nossa reapresentação no dia 22 também não foi diferente. Fomos calorosamente aplaudidos”, relatou.
Da sala de aula ao palco
“Mangangá: A Encruza” nasceu, em 2026, a partir do desdobramento do projeto “Mangangá”, apresentado em 2023 como leitura dramatizada pelos alunos da turma T20 do curso técnico em Teatro da Emart. A primeira montagem foi apresentada no Centro Cultural Rinha das Artes, em Macaé, sob direção de Neyva Santiago e Leandro Triervailer.
Segundo Neyva, a nova produção preserva elementos da pesquisa anterior, mas apresenta uma construção dramatúrgica própria. “No teatro, nenhuma história acontece por acaso, nenhuma história termina. Somente o tempo. Mesmo após três anos, ‘Mangangá’ reverbera na nossa memória, mas não é mais o mesmo processo teatral de 2023. A ‘encruza’ vem nos dizer que as histórias dos caminhos se cruzam e se separam, como a vida real”, explicou.
A diretora também destaca o caráter coletivo da criação. A partir do trabalho desenvolvido com Lyon Ferreira e João Avlis, o grupo construiu uma nova composição textual que aborda ancestralidade afro-brasileira, capoeira e jongo, além de discutir questões como preconceito, violência, machismo e intolerância religiosa.
A montagem contou ainda com a participação do Mestre Dengo e do Centro Cultural Raízes de Aruanda, que contribuíram com estudos e práticas de capoeira, jongo e musicalidade de matriz afro-brasileira.
Para a secretária de Cultura, Waleska Freire, a participação da Emart no festival amplia as oportunidades de formação e circulação dos estudantes. “É uma grande alegria ver uma produção da nossa Emart selecionada para um festival de alcance internacional. Essa participação valoriza o trabalho dos nossos alunos, professores e profissionais envolvidos na montagem e mostra que Macaé também produz teatro de qualidade, com formação e talento. É uma oportunidade importante para esses jovens artistas ampliarem suas experiências e levarem o nome da nossa cidade para outros espaços culturais”, assegurou.
A montagem
Com direção de Neyva Santiago, “Mangangá: A Encruza” tem texto construído por João Avlis, Lyon Ferreira e Neyva Santiago. O elenco é formado por Lyon Ferreira, João Avlis, Victor Celestino, Marcos Vitor Soares, Tânia Sales e Thiago Soares. A trilha sonora executada ao vivo tem participação do Mestre Dengo.
A narrativa conduz o público pela ancestralidade afro-brasileira a partir da trajetória de Dara, guiada pela Entidade, e de Manoel, figura de afeto e proteção. A história também apresenta Casemiro, que interrompe a travessia de Dara ao ferir seu corpo e sua alma. Em outro ponto do vilarejo, a peça acompanha Florência, lavadeira, e Chico, cortador de cana, em uma rotina marcada pela pobreza, violência, cansaço e falta de perspectivas.
A obra propõe uma reflexão sobre o silêncio e as escolhas diante das situações de violência e sofrimento.
Vozes do elenco
Lyon Ferreira – Entidade
Aos 27 anos, Lyon Ferreira é aluno da turma T20 e um dos autores do texto de “Mangangá: A Encruza”, ao lado de Neyva Santiago e João Avlis. No espetáculo, interpreta a Entidade, figura que atravessa a história e os caminhos dos personagens.
Segundo Lyon, sua trajetória na Emart começou em 2020 e foi marcada por encontros e experiências que contribuíram para sua formação artística. “A Emart fez parte de um período importante da minha formação. Foi também onde conheci pessoas que se tornaram parceiras de criação e que continuam contribuindo para a minha caminhada profissional”, afirmou.
Para o ator, voltar ao universo de “Mangangá” três anos depois da primeira experiência teve um significado especial. “Estar ali, apresentando um novo pedaço dessa história, com uma face e energia completamente nova, foi quase como olhar para trás e pensar: ‘caramba, a gente conseguiu’. Foi uma confirmação de que todo aquele esforço, todos os obstáculos e tudo que a gente viveu durante o processo fizeram sentido”, apontou.
Thiago Soares – Chico
Aluno da turma T24, Thiago Soares, de 40 anos, interpreta Chico. Ele iniciou os estudos na Emart no curso básico adulto e ingressou no curso técnico em Teatro em 2024.
Para o ator, a escola representa a realização de um projeto pessoal. “A Emart significa a possibilidade da realização de um sonho, trazendo o conhecimento teórico e prático para essa profissão de ator”, afirmou.
Sobre a montagem, Thiago enfatiza o processo coletivo de construção. “Em cada reunião surgiram as ideias e, em cada ensaio, as cenas foram sendo refinadas e aprimoradas, sempre com muito aprendizado”, relatou.
Marcos Vitor Soares – Casemiro
Marcos Vitor Soares, de 29 anos, é aluno da turma T20 e interpreta Casemiro. Depois de quatro anos de estudos na Emart, ele considera a participação no festival um momento marcante em sua trajetória.
“A Emart significa bastante para mim, por ter sido o lugar onde me formei. Apesar dos desafios e obstáculos encontrados no processo, consegui concluir. Tenho muita gratidão por ter conhecido alguns professores e profissionais que muito me ajudaram de diversas formas”, disse.
Sobre a participação no Niterói em Cena, Marcos assinala a oportunidade de apresentar o trabalho produzido em Macaé para novos públicos. “Ter levado esse projeto para o Festival Niterói e, ainda, levado o nome da cidade de Macaé para um novo espaço cultural é realmente um divisor de águas para nós. Fomos recebidos com muito carinho, respeito e parceria pelos outros grupos e por todos do espaço cultural Cauby Peixoto”, observou.
João Avlis – Dara
João Avlis, de 25 anos, interpreta Dara e também participou da construção do texto da montagem. Aluna da turma T20, ela exalta as relações construídas durante sua passagem pela Emart.
“A Emart contribuiu no conhecimento de outros artistas, que possuo uma troca até hoje”, expos.
Esta foi a primeira experiência de João em um festival atuando. “Foi muito bacana ver e conhecer outros artistas e poder representar a nossa cidade em Niterói. Foi mágico”, salientou.
Tânia Sales – Florência
Tânia Sales, de 49 anos, interpreta Florência e integra a turma T26 do curso técnico em Teatro. Ela iniciou os estudos na Emart em 2024, no curso livre adulto.
Segundo Tânia, a escola tem contribuído para seu desenvolvimento artístico. “A Emart tem contribuído muito para o meu avanço e desenvolvimento nos estudos da arte teatral e, dessa forma, me ajudando a construir e amadurecer uma trajetória satisfatória na carreira de atriz”, avaliou.
A preparação para a personagem envolveu uma reflexão sobre a violência doméstica e as condições de vida da personagem. “A cada ensaio temos a oportunidade de aprofundar a história da personagem, como também todo o universo de questões que ‘Mangangá: A Encruza’ nos traz”, explicou.
Sobre a participação no festival, Tânia define a experiência como um marco. “Foi um marco histórico. Representar a Emart em um festival de abrangência internacional, participando de um trabalho teatral da importância artística, cultural e social como ‘Mangangá’ é uma grande satisfação”, frisou.